Pintor Flávio de Carvalho fixou históricos marcos da modernidade

Estadão Conteúdo
Cultura | Publicado em 15/08/2019 às 07:40

A exposição dedicada a Flávio de Carvalho, a partir de sábado (17), na Galeria Almeida & Dale, vai ser aberta com uma de suas mais provocativas obras, O Bailado do Deus Morto, espetáculo pioneiro que é considerado pelos historiadores de arte como a primeira peça experimental apresentada no Brasil, em 1933. Ela será recriada por atores do Teatro Oficina, grupo que encenou a peça em 2010, na Bienal de São Paulo.

Como sempre, Carvalho, autor da peça, teve como primeiro espectador a polícia: 150 policiais cercaram o prédio onde ela foi exibida. Os atores convidaram os militares a assistir e O Bailado recebeu até elogios do chefe de polícia, mas o Clube dos Artistas Modernos, onde se realizou o espetáculo do Teatro da Experiência criado por Flávio, acabou fechado pelo delegado. Mesmo destino teve sua primeira exposição individual, em 1934, igualmente encerrada pela polícia por "atentado ao pudor".

Retratos daquela época estão na exposição da Galeria Almeida & Dale, como o de seu amigo Carlos Prado (1908-1992), também pintor e arquiteto com o qual Flávio de Carvalho dividiu ateliê, em 1931. Prado, teórico da arquitetura funcional, era um interlocutor com grande influência sobre o amigo, que não conseguiu realizar mais de dois projetos arquitetônicos: o conjunto das casas modernas da Alameda Lorena (1936/1938) e a casa da fazenda Capuava (1939). Na mostra, há fotos de projetos rejeitados ou que não chegaram a ser concretizados, como o da catedral de São Carlos do Pinhal, de 1969, uma construção piramidal com anjos e madonas emergindo do teto.

"Como a exposição foi concebida para Londres, ela tem um aspecto quase didático para apresentar a obra de Flávio, que é analisada em três ensaios de Rui Moreira Leite no catálogo da mostra, abordando desde sua relação com a moda ao seu vínculo com o estudo psicanalítico", diz a curadora Kiki Mazzucchelli.

Sua pintura expressionista com forte ligação com a estética dadaísta e surrealista tem o propósito de investigar o caráter psicológico de seus retratados. E a exposição traz retratos desde amigos próximos, como os sociólogos Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, até compositores como o russo de origem armênia Aram Khachaturian (1903-1978), que Kubrick promoveu ao usar excertos de sua Suíte Gayane em 2001, Uma Odisseia no Espaço.

"Flávio se aproximou depois dos realistas ingleses, mas também de Ben Nicholson", conta a curadora. Há um exemplo abstrato que aproxima Flávio do pintor Nicholson. Na mostra, tal ressonância é visível numa tela como Summer Landscape (Paisagem de Verão, 1964) que ecoa a paisagens abstratas do artista inglês. "Essa rede de amigos do pintor é muito eclética", observa Kiki Mazzucchelli, citando dois retratos que selecionou para a exposição: o do crítico literário e tradutor Sérgio Milliet (1951), que incluiu seu trabalho na 25.ª Bienal de Veneza (1950), e do psicanalista britânico Wilfred Bion (1973).

Bion (1897-1979) teve um papel decisivo no desenvolvimento da psicoterapia de grupo, que não era bem-visto por sua mentora em análise, Melanie Klein. O terapeuta inglês participou de diversos seminários no Brasil nos anos 1970, época em que Flávio de Carvalho certamente conheceu Bion, interessado que estava em trabalhos de dinâmica de grupo. Há no retrato traços de um homem tenso, retraído, mas ainda vigoroso (ele era alto e atlético) com os braços estendidos para o próximo.

O retrato da companheira do artista, Maria Kareska (1956), soprano de origem lituana, tem igualmente nas mãos um detalhe revelador de seu interesse pelo esquematismo dos desenhos de moda - a pintura é do ano em que concebeu o New Look, traje para trazer conforto ao homem tropical, segundo justificou Flávio a sua minissaia de tecido leve. É um período em que a profusão de desenhos com nus femininos dominam sua produção.

A irreverência se acentua nos últimos anos. Há, na mostra retrospectiva, pinturas para se ver no escuro, feitas com tinta fosforescente e iluminadas por luz negra. Não são suas melhores obras, mas revelam um homem de múltiplos interesses que não recuou diante da experiência.

FLÁVIO DE CARVALHO

Galeria Almeida & Dale. Rua Caconde, 152, tel. 3882-7120, Jardins. 2ª a 6ª, 10h às 19h. Entrada gratuita. Até 19/10.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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