Livre da Dor

Sara Presoto
Comportamento | Publicado em 02/12/2019 às 01:44

Esses dias, recebi um direct de uma seguidora do Instagram que questionava porque uma pessoa tão “esclarecida” como eu (palavra utilizada por ela), havia se envolvido em um relacionamento abusivo. Eu apenas respondi que eram “n” fatores e perguntei se ela queria que eu gravasse um IGTV comentando sobre o assunto. Ela disse que sim e a verdade é que eu nunca tive coragem de gravar.

Primeiro porque eu não sei direito a resposta. Segundo, talvez porque eu não seja tão esclarecida assim.

O fato é que esta pergunta tem me perseguido. E eu nunca parei para pensar na resposta, por talvez medo dela.

Hoje, fazendo um exercício de “liberação de ressentimentos”, o tal questionamento me veio à tona e os verdadeiros “porquês” me deixaram curiosa.

Atualmente se fala muito em relacionamentos tóxicos, abusivos, nocivos, doentios... mas eles sempre existiram. E em via de mão dupla. Quero deixar claro que, não são apenas os homens que são abusivos. As mulheres também o são.

MOTIVO 1. DOAR-SE SEM LIMITES. ANULAR-SE

Eu sei que eu amei. Amei como nunca havia amado outrora. Uma entrega total. Sentia alegria em fazer pelo outro. Doar-me. Mas o fiz tanto que acabei me deixando de lado e o colocando em um pedestal. Minhas vontades, desejos, sonhos já não importavam mais. Tudo em detrimento do outro. Anulação. E ao se fazer isso, o outro, que jamais havia sequer pedido isso, acabou por entender que era assim que funcionava e quando você dá a mão, lhe pedem o braço. E assim o foi. Talvez este tenha sido um dos motivos. Mas apenas 1 pequeno motivador do tal relacionamento. E veja bem, eu não estou falando que a gente não deve se doar em nossos relacionamentos. Ao contrário. Precisamos, para que dê certo, mas, sem deixar nos anular.

MOTIVO 2. CARÊNCIA

Eu sempre fui muito carente. Na hipnose consegui entender um pouco mais do porquê dessa carência desenfreada que deseja ardentemente a aceitação, aprovação dos outros. E quando a gente é carente, a gente se contenta com pouco. Com migalhas. Com pessoas que não estão preparadas para relacionar-se com outras. A gente aceita o que tem e ponto. A gente acha que temos o que merecemos. E se estamos passando por tal situação, é porque precisamos, devemos. E olhamos para o lado e ainda destacamos: “mas ele nem me bate”. (...) A pior agressão é a emocional, é a psicológica, aquela que te faz se sentir um lixo. Agressão velada. Fantasiada de lição de moral. Que te insulta verbalmente. Que te isola de tudo e de todos e te leva a acreditar que você está sempre errado. Que é indigno até de estar vivo.

Pois eu me senti assim. Pensei em me matar. Desejei do fundo do coração morrer. Morrer para acabar de vez com aquela dor que eu sentia. E que aos finais de semana ficava mais forte. Queria morrer como forma de protesto. De vingança. Queria gritar. Clamar socorro: Estou INFELIZ! Você me faz mal!

Eu o expulsei de casa, diversas vezes. Pedi, implorei para que fosse. Ele dizia: chama a polícia.

Até que um dia, o começo do nosso fim, foi quando, cansada de implorar liberdade, presa na minha própria casa, eu saí para trabalhar, levar meu filho na escola e eu não voltei.

Fui para casa dos meus pais e ali fiquei alguns dias. Minha condição para voltar era que ele saísse. Só assim ele se foi.

MOTIVO 3. LIÇÕES

Creio em Deus. E acredito que nada acontece por acaso. Acredito que a gente faz escolhas erradas e que muitas vezes aprendemos a lição pela dor e não pelo amor. Comigo foi assim. E sabe o que é mais curioso disso tudo? É que não o odeio. Amo o bem que ele me fez. Porque o mal eu já perdoei. Já o liberei para ser feliz. Insisto em mexer no passado para dirimir qualquer resto de aprendizagem que tenha ficado de fora. Faço questão de tirar proveito de tudo o que aconteceu. Doeu tanto. Tanto. Ainda dói quando eu paro e penso que eu não enxergava o que eu estava passando. Eu não conseguia ver o quanto eu estava ferida e respingando sangue ao meu redor.

(...)

Ontem mesmo me questionaram porque as pessoas devem mexer no passado se o passado já passou? Que seria masoquismo relembrar e reviver o que nos fez mal. Na hora, eu não soube como responder. Eu entendi, mas não pude me expressar em palavras. A resposta, minha amiga, é que a gente, muitas vezes, nem se lembra mais do que nos feriu, mas ainda há dores. Sequelas, lugares que permanecem latejando. E eu escolhi, tirar o curativo, cutucar a ferida, deixar sangrar, mas retirar a ferpa que estava ali naquele machucado antigo e que só as vezes incomodaria. Mas, o fato é que ela ainda estaria ali. Eu quero viver sem resquícios. Limpa. Sem máculas. Sem riscos de inflamação. Sem a aflição de um dia, sem eu querer, ou estar preparada, o meu corpo, sozinho, resolver expelir aquele objeto estranho de dentro de mim.

Na vida, nós temos 2 escolhas:

  •  Enfrentar nossos próprios pesadelos, compreendê-los. Por mais que machuque. Entender os porquês e para quês dos mesmos. Transformar a experiência ruim em trampolim. Resignificar. Perdoar (a nós e quem nos feriu.) E viver uma vida nova. Livre de ressentimentos, culpas ou condenações.

Ou

  • Esconder dos outros e principalmente de nós mesmos tudo o que nos agrediu, afligiu, maculou. E viver uma vida de aparências. Máscaras. Acobertada pela falsa alegria. E no silêncio do próprio eu, regar a dor, sufocada dentro da alma que um dia vem à tona em forma de doença.

Por isso digo que, hoje dói, para que amanhã eu viva livre, em paz, sem dor, de alma lavada, pronta para recomeçar.



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