Em tempos de confinamento, trabalho mental vira prioridade para Arthur Nory

Estadão Conteúdo
Ginástica | Publicado em 07/04/2020 às 08:10

Assim como milhares de outros atletas profissionais ao redor do mundo, Arthur Nory está neste momento fazendo o que é possível para manter a forma física em tempos de coronavírus - mesmo confinado em sua residência, o ginasta conserva a rotina diária de exercícios. Para ele, no entanto, preservar o condicionamento atlético não é a única preocupação atual. O campeão do mundo na barra fixa em 2019 está convencido de que tão importante quanto isso é manter a cabeça saudável.

É fácil compreender a inquietação do paulista de 26 anos. O título mundial conquistado em Stuttgart, na Alemanha, colocou-o na condição de uma das principais esperanças de medalha de ouro para o Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Nory contava as semanas para a chegada de julho, quando iria ao Japão para brigar por seu primeiro título olímpico (ele ganhou o bronze no solo no Rio-2016), mas o coronavírus chegou e mudou tudo. A Olimpíada foi adiada para 2021 e agora o ginasta terá de passar mais de um ano controlando a ansiedade.

"Eu tenho de trabalhar bastante essa ansiedade", reconheceu Nory em entrevista ao Estado. Não por acaso, ele tem dividido seu tempo entre os treinos físicos e o trabalho psicológico. "Já estou adaptando treinos, trabalhando muito a mentalização, a respiração, tudo para controlar essa ansiedade, trabalhando a paciência... Eu estou encontrando algumas formas alternativas de manter a cabeça bem."

O adiamento dos Jogos de Tóquio para o ano que vem, como se vê, gerou um desafio a mais para Nory, mas isso não significa que ele ficou chateado com a decisão tomada em conjunto pelo COI e pelas autoridades japonesas. O ginasta considera que seria praticamente impossível chegar ao evento em boas condições físicas e técnicas se a data original fosse mantida, por isso viu a mudança com bons olhos.

Sem nenhuma perspectiva de competição no horizonte - o adiamento dos Jogos certamente provocará uma profunda reforma no calendário deste ano, mas nada foi decidido sobre isso ainda -, Nory sabe que é impossível fazer treinos técnicos estando "preso" em casa, mas ele garante que esse problema será facilmente resolvido quando for permitido voltar às atividades normais. Recuperar a forma física, segundo ele, é bem mais complicado, por isso o ginasta se esforça para perder o menos possível nesse terreno.

Todos os dias, ele treina "junto" com seus companheiros de equipe. As aspas aqui se justificam porque, na verdade, cada atleta está em sua casa, mas ficam todos conectados por meio de um aplicativo de telefone celular - assim como os treinadores. É uma maneira de melhorar o rendimento nos treinos e, ao mesmo tempo, diminuir um pouco a sensação de isolamento.

"A gente faz um treino coletivo virtualmente. Então os treinadores e todos os atletas estamos nos vendo via celular e mantendo esse condicionamento", explicou o ginasta. "A cada dia é um treino diferente. Todo dia pela manhã a gente está se mantendo na ativa para não perder o condicionamento porque é algo que se pode perder muito facilmente."

NADA DE LESÕES - Assim como boa parte da população mundial, Nory está muito preocupado com a pandemia do coronavírus, até por saber que vários atletas, de diversas modalidades, contraíram a covid-19. O ginasta, porém, está seguro de que a disciplina que o esporte de alto nível exige é uma grande vantagem para ele neste momento dramático, pois os grandes competidores estão acostumados a levar uma vida regrada e, portanto, têm mais facilidade para seguir à risca as orientações das autoridades de saúde.

Além de se manter bem longe do vírus que apavora o planeta, Nory tem também a preocupação de ficar distante das lesões. No passado, ele teve problemas sérios de ombro e joelho, por isso em suas atividades está incluído um trabalho de proteção para evitar que uma nova lesão desfaça o sonho de conquistar o ouro na capital do Japão.

"O adiamento dos Jogos vai me fazer mudar o cronograma de preparação, junto com toda a equipe multidisciplinar: técnicos, médicos, fisioterapeuta, psicóloga... Então é traçar a melhor estratégia possível para continuar trabalhando. É um ano pré-olímpico agora e vamos voltar a trabalhar novamente esses pontos para ficar fora de correr o risco de lesões", disse Nory, que mantém a intenção de competir em Tóquio no solo e na barra fixa.



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