Por onde andam os coletes amarelos da França?

Redação Tarobá News
30/07/2019 10:43

O movimento de protestos que começou nos primeiros dias de novembro do ano passado contra o plano de aumento de tarifas cobradas na França sobre o diesel e o petróleo e que se transformou em um movimento anti governista por toda a sociedade francesa, chamando a atenção do mundo inteiro, parece ter perdido força.

Os "gilet jaunes" ("coletes amarelos"), nome dado porque os manifestantes vestiam os coletes fluorescentes que todos os motoristas precisam, por lei, carregar em seus veículos, quase não são vistos mais nas ruas do país.

Quando o movimento estourou, a reação do presidente do país, Emmanuel Macron, foi insistir em afirmar que a medida significava a transição para o consumo de energia sustentável. O número total de manifestantes chegou a cair desde o pico de 17 de novembro, quando cerca de 285 mil pessoas saíram às ruas da França.

No dia 1 de dezembro, duas semanas depois do primeiro ato, o ministério afirmou que 75 mil pessoas estavam protestando pelo país. Acredita-se que cerca de 100 mil pessoas estiveram nos atos ao longo daquele dia.

Os especialistas afirmam que os gilets jaunes perderam força mesmo em meio a decisões polêmicas do governo francês: em maio, o Eliseu publicou uma emenda que concede o direito das empresas que administram algumas estradas do país a assumir o controle delas e realizar trabalhos em "infraestruturas" com o efeito de "facilitar, assegurar ou tornar mais fluídos os acessos a uma estrada ou suas rotas". Em troca, as empresas podem aumentar as tarifas dos pedágios.

Outra mudança que o governo fez mesmo ainda no rescaldo dos protestos foi uma mudança no seguro-desemprego da França. "Ela conseguiu a façanha de gerar descontentamento de sindicatos e empregadores. Em particular, a lei estabelece condições de compensações menos favoráveis para certas categorias profissionais. Uma decisão vinda de cima", explicou o economista Frédéric Liz ao jornal Libération.

Para ele, a melhor explicação possível para o fim provisório dos gilets jaunes mesmo com leis polêmicas é que os cidadãos atraídos pelo governo para discutir questões ambientais, que Macron chamou de "Convenção do Cidadão", além do "grande debate nacional", que ainda não teve um fim, tenham servidos para apaziguar os ânimos.

"Macron está economizando tempo para acalmar as ruas. É o clorofórmio em vez de uma cura", disse. "O governo procurou menos cauterizar o problema e mais procrastiná-lo", completou.

A violência cresceu nos protestos semanais em Paris entre novembro e fevereiro -- geralmente organizados aos sábados. Embora milhares de pessoas tenham participado dos atos iniciais forma pacífica, cerca de três mil manifestantes entraram em confronto com a polícia em um final de semana, queimando cerca de 100 carros, incendiando vários edifícios e saqueando bancos e lojas em alguns dos endereços mais caros da capital francesa. A imprensa francesa afirmou que não houve mortos porque a polícia do país usa uma espécie de carabina de pressão.

Como reação, Macron decidiu reforçar a estratégia de repressão para evitar novos distúrbios nas grandes cidades do país e proibiu manifestações em bairros que já haviam sido palco dos conflitos entre manifestantes e policiais ー entre eles a famosa avenida Champs-Élysées, centro turístico e comercial de Paris, no oitavo arrondissement.

A prestigiada avenida parisiense já havia deixado o circuito de protestos nos últimos finais de semana, quando a polícia fechou todos os acessos à via mais importante da cidade ー que dá acesso aos Jardins de Tuileries e ao Arco do Triunfo. Com isso, os manifestantes se concentravam em outros pontos da metrópole. Desde a irrupção do movimento, a Champs-Élysées não tinha sido um local histórico de manifestações políticas ー o que expressava o impacto global desejado pelos membros dos protestos.

Em fevereiro, em meio aos atos dos gilets jaunes, um cemitério judeu em Quatzenheim, na Alsácia, foi invadido e cerca de 80 tumbas foram pichadas com suásticas. Macron visitou o local no dia seguinte, afirmando aos líderes locais e à comunidade judia que "era importante para ele estar ali naquele momento". Nos últimos finais de semana, às margens dos atos, vários discursos de ódio foram direcionados ao filósofo Alain Finkielkraut, filho de um judeu polonês conhecido por ter sobrevivido a Auschwitz. Um grupo de homens o chamou de "sionista sujo" e disse que a "França não lhe pertence".

Em janeiro, com a abertura do chamado "grande debate nacional", iniciativa do presidente Emmanuel Macron, o país pareceu acalmar-se. No entanto, no dia 16 de março, um dia depois da data final da discussão promovida pelo governo, 10 mil pessoas foram às ruas vestidas com os coletes amarelos e roupas pretas contra o presidente e seu mandato. Foi o 18º sábado seguido de atos por várias cidades francesas ー em Paris, um grupo destruiu vitrines da Champs-Élysées, incendiou bancas de jornal e edifícios e saqueou comércios. Desde dezembro, foi o dia mais violento dos atos.