Como os revolucionários cubanos influenciaram a moda mundial

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07/05/2019 17:18

Era como se o cantor Frank Sinatra fosse se apresentar em um cassino em Las Vegas, em Nevada. Em uma tarde de abril de 1959 - portanto, 60 anos atrás -, milhares de fervorosos jovens nova-iorquinos se aglomeraram para receber uma celebridade estrangeira que chegaria num trem na Penn Station, no coração de Manhattan: o cubano Fidel Castro, líder da revolução que recém-começava.

 Quatro meses antes, ele havia destituído a ditadura militar de Fulgêncio Batista na ilha e se tornara famoso no mundo inteiro, atraindo uma multidão que nenhum outro líder político não estadunidense conseguira na história da cidade. Enquanto as pessoas gritavam o seu nome, Castro atravessou um cordão policial saudando os presentes sem muitos sorrisos.

 Foi o começo de uma série de eventos em uma visita de quatro dias que cativou Nova York e foi um ponto na história... da moda. Segundo Sonya Abrego, historiadora da moda dos homens no século 20, foi naquele abril de 1959 que começou o que hoje se costuma chamar de "radical chic": o sapato social, o terno e a gravata foram substituídos pelas botas combinadas com roupas militares.

 Quando a fotografia de Castro apareceu na primeira página do jornal New York Times, no dia seguinte à sua chegada, a legenda era quase desnecessária: todo mundo reconhecia o homem que, com um estilo único de se vestir, encantava os homens jovens: a barba cheia, o uniforme militar e a bota alta.

 O grupo que acompanhou Fidel durante a viagem também era um ponto alto: formado por cerca de 70 ex-guerrilheiros vestidos de calças cáqui e todos, sem exceção, usando grandes barbas - eles eram conhecidos em Cuba como "los barbudos".

 "Fidel, 'Che' Guevara e os 'barbudos' foram os primeiros hippies", disse Jon Lee Anderson, jornalista estadunidense da revista The New Yorker e autor da biografia mais famosa do guerrilheiro argentino - ele está terminando uma sobre Fidel Castro. "Eles surgiram no início da era da televisão como rebeldes sexys. Aquela aparência em conjunto, do cabelo longo, a barba e a boina, era forte. Fazia parte do espírito da época", escreveu.

 Em 1959, os jovens estadunidenses estavam dando os primeiros sinais de desencantamento com o que consideravam a era do conformismo pós-Guerra Fria. O hino à liberdade de Allen Ginsberg, Aullido, ficou famoso em 1956; On the Road, de Jack Kerouac, chegou às livrarias do país no ano seguinte, quando O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir, já estava traduzindo o movimento pelos direitos civis em expansão nos EUA - ele explodiria na década seguinte.

 Os cubanos foram, naquele momento, uma ponte estilística entre os beats e a contracultura da década de 1960, sustentou Abrego. "A história da moda não é linear. Poderia ter tido hippies de cabelo longo sem a ideia de Che Guevara, mas a impressão que os cubanos deixaram na paisagem da moda da indumentária masculina é autêntica", completou.

 Segundo historiadores e biógrafos, as barbas dos revolucionários de Sierra Maestra nasceram da necessidade. Após um desembarque traumático em uma praia perto de Santiago de Cuba, em dezembro de 1956, nem Castro nem o pelotão sobrevivente à chegada em Cuba tinham navalhas para se barbear ou cortar os cabelos.

 Logo, as grandes e espessas barbas e os cabelos longos se tornaram um "símbolo da identidade" dos guerrilheiros, como explicou o próprio Fidel Castro ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet no livro Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes. O estilo acidental se tornou permanente para "manter o simbolismo".

 Outros elementos do estilo revolucionário se combinaram durante a campanha guerrilheira, como foi catalogado nas revistas de moda dos Estados Unidos naqueles anos. Em 1958, por exemplo, Raúl Castro, irmão mais novo de Fidel, foi fotografado pela revista Lifecom o cabelo perto dos ombros e um grande chapéu de vaqueiro na cabeça. A mesma coisa com “Che” Guevara, cujos cabelos caíam por trás de uma boina preta com uma estrela militar na ponta.

 Para completar a influência estilística, não eram apenas homens que posavam com rifles na floresta cubana: no começo de 1958, uma fotógrafa espanhola foi a Sierra Maestra enviada pela revista francesa Paris Match e voltou de lá com imagens raras de uma das principais líderes da guerrilha, Vilma Espín, que numa das fotos aparecia com uma flor atrás da orelha - muito antes das clássicas fotos dos hippies com a mesma pose.

 Ela também voltou a Paris com fotos de Celia Sánchez, a principal organizadora dos rebeldes cubanos e que havia desenhado o próprio uniforme com calças de sarja ajustadas ao quadril e uma camisola militar com corte em V. Em julho daquele mesmo ano, Espín apareceu na Life com um fuzil carregado sobre a cadeira, em outra pose que o cinema hollywoodiano repetiria à exaustão nos anos seguintes.

 Antes da visita de Fidel Castro aos Estados Unidos, em 1959, os cubanos tinham contratado o prestigiado agente de relações públicas Bernard Rellin, então um dos grandes nomes da Madison Avenue - o endereço das agências de publicidade dos EUA, em Nova York -, para ajudar o líder cubano a atrair os estadunidenses. Quando se conheceram, em Havana, Rellin disse a Fidel que os revolucionários precisariam começar cortando o cabelo, mas ouviu um "não" como resposta. 

 A chegada do líder cubano a Nova York provou que ele estava certo: em abril, a imagem característica do homem alto, barbudo, com cabelos longos e roupa militar ficou tão famosa nos EUA que uma empresa local se ansiou em produzir boinas militares com barbas removíveis para as crianças. Cada uma delas tinha o logotipo preto e vermelho do movimento 26 de Julio, o grupo revolucionário de Fidel, e as palavras "El Libertador", cuja referência era o herói da independência dos países sul-americanos, Simón Bolívar.

 A visita de Fidel Castro a Nova York marcou também o início do fenômeno de consumo dos jovens em torno de heróis surgidos na TV. Em uma época de expansão dos meios midiáticos e de progresso econômico no Ocidente, a classe média era cada vez mais jovem. "Foi a primeira vez que os adolescentes do mundo copiaram mutuamente o estilo de uma maneira consciente", refletiu o escritor estadunidense Nathaniel Adams ao jornal New York Times. "Eles criavam as próprias tendências, sem a intervenção dos adultos. Segundo Adams, Fidel chegou a Nova York como um James Dean estrangeiro: educado, porém rebelde.

 O encantamento com Fidel, porém, não durou muito. Na verdade, foi um romance de verão. Quando o líder cubano voltou a Nova York, para a conferência geral da ONU, em 1960, ele foi ridicularizado pelo seu mesmo estilo militar que fora cultuado um ano e meio antes. Um senador o chamou de "cavalheiro cubano" e um jornal de Nova York estampou em sua primeira página o apelido "La Barba". Não tardaram os cartazes de protesto que, tentando atacar revolucionários e hippies, diziam que "cabelo longo é comunismo".

 A influência sobre a moda permaneceu, porém, em outra classe: na segunda visita, Fidel e seus acompanhantes se hospedaram em um hotel no bairro negro do Harlem, onde promoveram um encontro entre o cubano e Malcolm X, então um líder do movimento afro-americano. Castro ainda foi fotografado em uma festa organizada por um grupo entusiasta da revolução que reuniu nomes como os poetas Allen Ginsberg e Langston Hughes e o fotógrafo Henri Cartier-Bresson. "O pessoal que trabalhava no hotel, o uniforme verde-oliva dos guerrilheiros e a falta de formalidade ajudaram a dar fama a uma atmosfera alegre e estimulante, ainda que não revolucionária, da reunião", diz uma reportagem publicada no NYTimes da época.

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