Livro aponta tutela de militares na República

Estadão Conteúdo
Política | Publicado em 14/07/2019 às 08:40

Um dos principais historiadores brasileiros, José Murilo de Carvalho resolveu se dedicar ao estudo dos militares como resultado de um choque. Ele era estudante de sociologia e política na antiga Universidade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, quando ocorreu o golpe militar de 31 de março de 1964.

Militante da Ação Popular, de esquerda, José Murilo escreve que ficou perplexo com a facilidade como se deu a vitória do movimento que depôs o então presidente João Goulart. A segunda surpresa foi quando os militares, em vez de devolver o governo aos civis, como em outras ocasiões, resolveram se instalar no poder e ali ficar por mais de 20 anos. Como conclusão do curso, José Murilo escreveu um trabalho sobre um modelo de relações entre civis e militares.

Posteriormente, José Murilo faria outros estudos sobre o envolvimento dos militares com a política brasileira, desde a quartelada que levou à proclamação da República em 1889. A maior parte desses trabalhos foi reunida no livro Forças Armadas e Política no Brasil, publicado pela primeira vez em 2005 pela Editora Zahar. A convite da editora Todavia, José Murilo acaba de revisitar e ampliar o livro, relançado com um novo capítulo em que aborda a eleição do presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, e a chegada ao poder de um novo governo que conta com o maior número da história de militares e ex-militares em chefias de ministérios.

Enxertado com pequenos ensaios sobre Euclides da Cunha, a Guerra do Paraguai e a participação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na II Guerra Mundial, o livro é uma longa explicação de como as Forças Armadas, de obedientes ao poder civil na época do Império, se transformaram em um poder moderador na República, exercendo uma tutela sobre a sociedade. Os perfis de dois militares que foram aliados de Getúlio Vargas e depois adversários do getulismo na sua fase populista se destacam na explicação.

O primeiro foi Góes Monteiro, que foi ministro da Guerra e chefe do Estado-Maior do Exército. Ao mesmo tempo em que sufocou as grandes divisões políticas internas no Exército na década de 30, Góes Monteiro, com o beneplácito de Getúlio, aumentou o poder da corporação durante o Estado Novo e pode ser considerado, segundo escreve José Murilo, o grande estrategista do "intervencionismo tutelar" das Forças Armadas. O segundo foi Juarez Távora, um dos tenentes da revolução de 1930 ao lado de Getúlio, que depois virou prócer da UDN. Távora, segundo José Murilo, encarnou os valores que depois se tornariam características do regime militar de 1964: nacionalista, antiliberal, antirrepresentativo, com rejeição ao "populacho", mas empreendedor de uma modernização "conservadora, pelo alto".

O capítulo final de uma reedição de 2006 apontava progressos depois da redemocratização de 1988, como o afastamento dos militares da política e a criação do Ministério da Defesa, mas apontava problemas como a omissão do Congresso em assuntos militares e a relutância das Forças Armadas em abrir os arquivos da repressão pós-1964. No fim, adotava um tom cético em relação à perspectiva de que os militares possam ter no Brasil o mesmo papel de "grande mudo" em assuntos políticos observado nas grandes democracias ocidentais. Esse ceticismo se mantém - e até se amplia - no novo capítulo escrito após a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

Embora ressalte que a atual gestão, mesmo repleta de militares, está longe de ser um governo militar, José Murilo sustenta que o Brasil continua uma "República Tutelada". O autor cita o fato de que cinco das sete constituições brasileiras, inclusive a atual, sancionaram um papel político para os militares e sugere a existência de um "acordo tácito de que a República ainda precisa de um bengala".

A conclusão é pessimista. José Murilo aponta a permanência de um "círculo vicioso" na relação entre militares e civis que será difícil de quebrar. "As Forças Armadas intervêm em nome da garantia da estabilidade do sistema político; as intervenções, por sua vez, dificultam a consolidação das práticas democráticas", escreve. "Estamos presos nessa armadilha e não conseguiremos escapar dela se não construirmos uma economia forte, uma democracia includente e uma República efetiva. Não conseguimos em duzentos anos de vida independente, e o tempo joga contra nós." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



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