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Doação de órgãos: ato salva vidas, mas enfrenta tabus e preconceitos

Redação Tarobá News

Foto: Assessoria

Quantas vidas uma única pessoa pode mudar (e para muito melhor) após a morte? De acordo com especialistas, passa de 10 o número de beneficiários da doação de órgãos e tecidos. Esse ato de altruísmo e solidariedade é o carro-chefe do setembro-verde que serve de alerta para a população sobre a importância da doação regular de órgãos e que tem no dia 27 do mês um valor especial: a data é lembrada como o Dia Nacional da Doação de Órgãos.

Uma discussão necessária porque quando se fala nesse assunto o que mais pesa na decisão de doar órgãos, segundo médicos e especialistas que atuam na rede de transplantes, é a falta de informação.

No Brasil, a doação é autorizada em casos de diagnóstico de morte encefálica, geralmente consequência de traumas violentos — causados por acidentes, por exemplo — e acidente vascular cerebral (AVC). É aí que aparece a equação mais difícil de ajustar nesse processo todo: conseguir da família a autorização para o procedimento no momento em que ela vive o ápice da dor da perda e a fase da negação do luto.

Diante desse contexto, a informação prévia sobre a vontade do doador poderia amenizar a angústia dessa decisão, mas, culturalmente, não falamos sobre morte — menos ainda sobre a chegada repentina dela. Muitas famílias optam por não doar órgãos justificando que desconhecem a vontade da pessoa que morreu. "Para ser um doador, a atitude mais importante é informar aos familiares o seu desejo. Não precisa deixar escrito, nem elaborar nenhum documento. Basta apenas falar à família", frisa a nefrologista, especialista em transplante renal, Rubia Boaretto. O corpo do doador não fica deformado pois, conforme a legislação (lei 9.434/1997), os médicos são obrigados a reconstituí-lo para que o paciente possa ser sepultado normalmente, sem nenhum procedimento especial.

Além disso, depois que a família opta pela doação, a Central de Transplantes faz diversos testes para verificar compatibilidades entre o doador e potenciais receptores. Equipes são mobilizadas para fazer a retirada, o transporte e o transplante. As famílias não têm custo nenhum e não são remuneradas por isto. O que fica é o sentimento bom de fazer o bem ao próximo e ter salvo uma vida.

Quando a doação é possível?

Para que os órgãos possam ser transplantados, é preciso que sejam retirados enquanto o coração ainda bate artificialmente — o que só é possível em casos de morte encefálica, quando todas as funções do cérebro param de maneira completa e irreversível. Essa é a definição legal de morte. Quando cessam todas as funções neurológicas, o organismo é mantido "funcionando" com a ajuda de aparelhos. Como ainda há uma pulsação e o corpo está quente, há dificuldade de os familiares entenderem que se trata de uma situação irreversível.

"O processo de avaliação de morte encefálica segue vários passos e nunca é feito unicamente por um mesmo médico. Ele é composto de testes clínicos e testes complementares feitos pelo médico intensivista da UTI, pelo especialista, o neurologista, no caso, e testes complementares, que são exames que vão comprovar que o indivíduo está em morte encefálica, que as funções foram perdidas de maneira irreversível e que ao desligarmos os aparelhos esse indivíduo não mais viverá", explica. "Então existe essa dificuldade de entender o que é a morte encefálica e de entender que existe um processo para sério fazer esse diagnóstico", complementa.

Além do paciente que foi diagnosticado com morte encefálica, também há o doador vivo. Ou seja, qualquer pessoa saudável pode ser doador em vida de um dos seus rins, parte do fígado, parte da medula óssea ou parte do pulmão para um familiar próximo (até 4ª grau consanguíneo).

Fila de espera

O preconceito e a falta de informação por trás da recusa da doação de órgãos impactam diretamente na fila de espera para transplantes. De acordo com dados do Ministério da Saúde, em 2019 mais de 27 mil transplantes foram realizados no Brasil. O país conta com o maior sistema público de transplantes do mundo, em que 95% dos procedimentos e cirurgias são realizados pelo SUS.

Entretanto, esse número diminuiu em 2020 em consequência da pandemia de Covid-19 e, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), cerca de 1.126 pessoas estão na fila de espera por um transplante de fígado e mais de 45 mil aguardam por um transplante dos demais órgãos sólidos.

Impactos da pandemia

De acordo com um levantamento da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o número de doadores de órgãos caiu 26% no país em 2021 devido à pandemia de Covid-19. A queda atingiu os pacientes que esperam por um transplante. Os procedimentos mais afetados foram os de pulmão (62%), rim (34%), coração (34%) e fígado (28%). O risco de contaminação e a lotação das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) por conta do coronavírus foram as principais razões da queda.

Conscientização

A médica acredita que o primeiro passo para contribuir com o aumento de doações de órgãos é falar sobre o tema que ainda é permeado por dúvidas e receios. Ou seja, conscientizar é o primeiro passo para salvar vidas. "O Brasil possui um sistema nacional de transplante extremamente organizado e correto que segue um critério de alocação muito severo em que não há interesses em benefício de um em detrimento de outro. Então acredito que o cenário deve melhorar, mas ele só vai mesmo ficar favorável quando a gente falar de fato de doação para que a gente possa despertar o altruísmo nas pessoas", finaliza.

Assessoria

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