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Bandas brasileiras celebram 10 anos de 'In Rainbows', do Radiohead

10/12/17 às 11:05 - Escrito por Estadão Conteúdo
Thom Yorke, do Radiohead (Foto: Valerie Macon / AFP) -

Lembro de ser uma quarta-feira. Havia aula de alguma teoria de alguma comunicação na faculdade. Lembro de não ligar a mínima para o que acontecia na sala de aula. O Radiohead havia lançado um novo disco. O disco. No esquema "pague o quanto quiser". Paguei US$ 2 (era universitário, afinal, pessoal).

Como grandes acontecimentos da humanidade, a chegada de "In Rainbows", nas primeiras horas daquele 10 de outubro de 2007, merece a pergunta: "onde você estava quando...?".

Não era só a inovação mercadológica da coisa, embora isso tenha rendido umas manchetes a mais para Thom Yorke e companhia. A banda, sem contrato com gravadora após o fim da parceria com a EMI em "Hail to the Thief", desafiava a indústria fonográfica que definhava. Disseram: "Ninguém vai comprar o álbum físico". E erraram.

"In Rainbows", quando chegou nas prateleiras, em 1º de janeiro de 2008, foi para o topo das paradas norte-americanas. Somente "Kid A", o sucessor de "OK Computer", obteve o mesmo êxito.

O amigo Alexandre Matias, do "Trabalho Sujo", escreveu um ótimo texto no site "Scream & Yell", do também grande Marcelo Costa, sobre a importância do álbum que vale a leitura.

Confesso, contudo, que todo esse contexto de "In Rainbows" me irrita. Tira espaço da arte produzida pela banda inglesa para falar de mercado. Uma injustiça, afinal. O sétimo lançamento do Radiohead, quatro anos após "Hail to the Thief", que tinha uma pegada mais política, é um álbum quente, percurssivo e com algumas das melhores canções de amor de Yorke. Que p... disco, meus amigos!

Dez anos, quase dois meses depois do lançamento de "In Rainbows", o mundo mudou mais um montão de vezes. A música por streaming permite que ouçamos o álbum em qualquer lugar do planeta com conexão de internet, por exemplo.

Dez anos depois, o universitário do início do texto, escreve sobre música, veja só. Dez anos depois, dez bandas brasileiras se reúnem para celebrar a década do disco que mudou o jogo em diferentes frentes.

E assim chega, "Br Rainbows", um trabalho lindíssimo do músico e produtor Kelton, que reuniu os artistas para recriarem, em um ambiente livre, cada uma das faixas quentes do Radiohead. Kelton também assina a masterização do trabalho.

Ele convocou um time de impacto do indie nacional para o duro trabalho de reconfigurar o Radiohead: Bratislava (ficou com a música "15 Step"), Peartree (com "Bodysnatchers"), Tuyo (com "Nude"), Aloizio e a Rede (com "Weird Fishes/Arpeggi"), Supercolisor (com "All I Need"), Amnesiac Kid (com "Faust Arp"), Zéfiro (com "Reckoner"), ele, Kelton (com "House of Cards"), Guaiamum (com "Jigsaw Falling into Place") e Diego Marx ("com Videotape").

"Br Rainbows" é uma viagem afetiva. Pela nossas próprias memórias com esse disco (que, se fosse físico, certamente teria sido furado pela agulha de tantas vezes que rodou por aqui) e, também, pelas lembranças das bandas que se propuseram a recriá-lo.

Victor Meira, da Bratislava, por exemplo, "entrou no Radiohead" por esse álbum. É do grupo a abertura do álbum, com a única, corajosa e viciante versão para "15 Step" em português. "Parece que todas as minhas lembranças dessa época tem o 'In Rainbows' como trilha sonora", conta.

"Não é surpresa dizer que Radiohead estimula o apetite, a gana de ter banda, de ser banda para quem 'adolesceu' em algum momento dos anos 2000?", diz Lio Soares, da Tuyo, que reconfigurou as sensações de "Nude" a partir da estética própria deles.

"A relação com essas canções é primordial para 'Br Rainbows' ('Weird Fishes') é a minha música preferida da vida e com uma das frases que sempre quis tatuar: 'I hit the bottom and escape'", diz Aloizio, de Aloizio e a Rede.

A liberdade para brincar com as canções do Radiohead criou momentos memoráveis justamente por isso. Os ingleses formam uma banda que se desconstrói e se desconfigura a cada álbum favorece essa inventividade, afinal.

A Peartree, por sua vez, optou por seguir um caminho mais fabril. Sua versão de "Bodysnatchers" brinca com o industrial ao diminuir as BPMs da canção e engrandecer as pontes que levam para o refrão que nunca vem.

Kelton, veja só, fez de "House of Cards" um quase country saboroso, enquanto Guaiamum optou por trazer climas sombrios e amenos para "Jigsaw Falling into Place".

Ouvir "Br Rainbows" é como assistir crianças a brincarem em um parque de diversões. Ou melhor: como ver adultos crescidos liberados para brincar como quiserem no parque de diversões que frequentaram tantas vezes na infância.

Portanto, vamos deixá-los brincar, certo?

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